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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Tempo?


21:00:00h. Estou um pouquinho atrasada, mas chegando.
21:05:05h. Ele liga em casa para desistir, mas eu já saí.
21:12:16h. Chamo no interfone mas ele ainda não está pronto, tenho outro amigo no carro então resolvo esperar no estacionamento mesmo.
21:25:55h. Ele aparece estiloso, os óculos fiéis, sempre responsáveis pelo charminho nerd, contrastam com a jaqueta de couro preta. Tenho vontade de fazer um comentário, mas por alguma razão me calo...
21:42:43h. Chegamos na festa. Eu, sempre meio serelepe saio falando com todo mundo, cumprimentando, abraçando, rindo, conversando, dançando...
22:00:45h. Passo por uma mesa com alguém que já não vejo a tempos, ele me chama para puxar uma cadeira e sentar junto. Agradeço o convite mas ainda estou "reconhecendo o ambiente".
22:06:34h. Sou apresentada para um cara que me abraça e me beija, me diz que sou linda e termina com: "Você vota?" huahuaha
22:21:45h. Começo a dançar com meu amigo e percebo que a muito não sei onde ele está.
22:30:23h. Vou deixar a bolsa no carro.
22:32:00h. Volto e vejo ele parado perto de onde eu estava. Ele está conversando, mas vira e sorri para mim. Por algum motivo esse sorriso mexe comigo e tenho vontade de dançar com ele.
22:32:10h. "Eu não sei dançar!" "Não precisa saber, só precisa dançar!"
22:33:15h. Ele me diz que a pista de dança não é ali e me leva para outro lugar.
22:35:02h. Eu reparo no cheiro dele pela primeira vez. Gosto.
22:35:20h. Estou me divertindo rodando ele, vendo o rostinho sem graça de não saber o que vai acontecer enquanto rola um Fala Mansa apressado. Gostaria de lembrar a música...
22:38:20h. A música acaba no meio, eu agradeço com um comprimento e ele reclama sem soltar minha mão... Eu gosto.
22:38:25h. Ele insinua que a próxima música é sertaneja. "Não dá pra dançar sertanejo" "Dá pra dançar qualquer coisa!"
22:38:34h. Voltamos a dançar.
22:39:00h. Eu reparo nele segurando a minha cintura, não o meio das minhas costas como o apropriado. Por um instante me sinto arrepiar de leve.
22:39:03h. Lembro que ele "não sabe dançar", pode não ter sido intencional.
22:39:04h. Páro de escutar o que ele diz, se é que dizia alguma coisa... Meus pensamentos estão voltados para a sua timidez em me segurar e para a minha pele que esquenta embaixo da sua mão direita.
22:45:10h. A música acaba e eu agradeço, mas só consigo pensar no quanto queria chegar mais perto, sentir os passos dele acompanhar os meus... Mas tudo está bem misturado na cabeça.
22:45:12h. Ele pergunta que música é aquela.
22:45:13h. Eu penso que o dj é péssimo e começo a sair do salão.
22:45:14h. Eu percebo que ele ainda está segurando minha mão. Penso que quer dançar mais. Penso que eu quero dançar mais.
22:45:15h. Ele solta minha mão.
22:45:16h. Droga de dj!!!!
22:45:35h. A gente vai pegar alguma coisa para comer e começa a conversar.
22:50:01h. Sentamos na mesa e eu não consigo escutar o que ele fala... Ainda sinto a minha cintura quente e acho engraçado.
22:55:04h. Uma amiga vem se despedir e me conta que meu amigo ficou sozinho. Peço a ela para encaminhá-lo para minha mesa.
22:56:49h. Penso que já deve ser tarde, é melhor ir para meu amigo não perder o ônibus.
22:56:50h. Olho para ele de novo e ele sorri.
22:56:55h. well, dane-se! Eu levo meu amigo em casa depois...
22:59:57h. Meu amigo senta na mesa com a gente mas não participa da conversa.
23:02:59h. Começa a me incomodar o fato do meu amigo estar mexendo no celular. Será que está fingindo que está ocupado porque se sente excluído ou realmente está ocupado?
23:04:26h. Eu não aguento e peço para meu amigo sentar do meu lado. Meu amigo me mostra o celular com cara de "estou ocupado".
23:04:27h. Eu relaxo.
23:04:30h. Reparo que a algum tempo não sei do que ele está falando, mas ele é esperto, e não quero que ele ache que eu estou entediada, então vez por outra me esforço para me concentrar e comento sobre a última frase.
23:10:00h. Meu amigo começa a participar da conversa.
23:10:01h. Eu me sinto bem mais aliviada. Agora posso observar sem medo de constranger! =)
23:15h:03h. Descubro porque eu acho que ele tem cara de bobo. É o jeitinho que ele ri. Por dentro rio sozinha lembrando o quanto eu adoro uma carinha de bobo, aquela impressão de inocência sabe? Aquela inocência saudável?
23:16:05h. Resolvo voltar para a conversa com mais afinco só para provocar aquele sorriso lindo, bobo!
23:40:05h. Um outro amigo chega. Me abraça, me beija e me conta as novidades. Levanto para falar com ele.
23:46:07h. Começo a querer colocar o novo amigo na conversa.
23:46:08h. Reparo porque: já estou com saudades...
23:46:09h. Me sinto ridícula.
23:48:02h. O novo amigo resolve cumprimentar o resto da mesa.
23:53:47h. O novo amigo vai embora.
00:03:32h. Eu penso que já deve ser tarde, lembro que ele disse que não queria ficar muito tempo e olho em volta. Já não vejo quase ninguém...
00:03:46h. Olho para ele de novo e some aquele início de vontade de ir embora.
00:03:53h. Rio de mim mesma e de toda a situação.
00:04:03h. Observo ele sorrir...
00:04:06h. Será possível? Que meu coração ainda despedaçado no chão da sala, o mesmo que ainda não tive ânimo para consertar, será possível que ainda assim possa funcionar?
00:05:00h. Concluo que ainda é cedo pra dizer.
00:23:07h. Ele levanta, fala qualquer coisa e sai.
00:26:30h. Olho em volta para saber onde ele foi.
00:26:58h. Encontro ele conversando com alguém.
00:28:02h. Fico entediada, me bate o sono e eu quero ir embora.
00:30:45h. Ele volta pra mesa.
00:30:47h. Eu repenso sobre ir embora...
00:31:01h. Ele avisa da hora e chama para ir embora.
00:31:02h. Eu fico sem graça, eu que devia chamar para ir embora não? Eu estou dirigindo... Odeio ficar "sem noção".
00:31:10h. Ele tenta voltar atrás, dizer que está bem, que era só para chamar a atenção...
00:31:14h. Eu interrompo e digo que estou mesmo com sono.
00:32:34h. Começamos a nos despedir do pessoal.
00:37:05h. Já na porta aquele mesmo amigo de antes volta a me encher de elogios.
00:37:10h. Adoro que os elogios estejam sendo feitos na frente dele e lembro do ex que gosta de queimar meu filme na frente dele...
00:37:15h. Começo a lembrar da minha teoria de que o ex faz isso pra "marcar território". Que nem cachorrinho que sai mijando em tudo que é árvore. Não vai voltar em nenhuma, mas está lá marcado o espaço dele!
00:38:27h. Começo a ficar sem graça pelos elogios que ainda estão rolando.
00:39:03h. Começo a pensar se não vão surgir o efeito contrário: ele pensar que o outro está afim de mim...
00:39:04h. Droga!
00:42:45h. Entramos no carro. Estou meio cansada, não participo muito da conversa...
01:12:32h. Chegamos na casa do meu amigo.
01:13:24h. Ele passa para o banco da frente.
01:13:57h. Eu fico feliz.
01:13:59h. Eu me acho engraçada...
01:30:45h. Eu tenho a brilhante ideia de andar mais devagar...
02:06:34h. Chegamos na casa dele.
02:06:35h. Ele me pede para estacionar e subir com ele para pegar um presente que a mãe dele deixou para mim.
02:07:32h. Ele segura a porta do elevador... hihihi
02:09:33h. Entramos na casa dele.
02:09:35h. Ele deixa a porta aberta.
02:09:36h. Não pretendo demorar, mas fico triste assim mesmo.
02:13:06h. Ele fecha a porta... =)
02:16:04h. Ele diz que vai descer comigo para me ajudar a carregar um tapete pequeno e uma lata de refri.
02:16:05h. Acho ele um fofo! huahua
02:20:32h. Eu abro a porta do carro.
02:20:35h. Eu dou um abraço de despedida nele.
02:20:36h. Eu sinto o cheiro dele de novo...
02:20:37h. Eu tenho que soltar?
02:21:02h. Ele vai avisar o porteiro para abrir a cancela.
02:21:04h. Eu agradeço a noite enquanto ele caminha.
02:21:05h. Ainda agradecendo tenho esperança dele parar de caminhar e voltar para o carro...
02:21:06h. Por que ele faria isso???
02:21:07h. Rio de mim mesma enquanto entro no carro e fecho a porta.
02:29:46h. Chego em casa.
02:30:04h. Ligo o computador e já me esqueço, ou nem acredito, em todas as pequenas coisas que senti e pensei hoje.
02:34:46h. Escrevo essa história...

Morena - jul/10

sábado, 10 de julho de 2010

Ah! Meu Samba...

- Então, o que você canta de romântica?

Pausa... longa! - Como assim?

- Música romântica! O que você canta de música romântica?

Nova pausa... quase desesperada de tão longa... - Sem ser samba?

- É porque você já colocou um monte de samba canção né?! A gente precisa de música romântica mesmo!

E eu páro até meio apavorada. Ok, sem ser os forrós que ele me deu pra aprender nem os sambas que guardo no coração, o que mais eu sei cantar??? Frito por alguns instantes até ele perceber minha agonia e tentar me ajudar:

- Roberto Carlos! O que você canta de Roberto Carlos?

Mais uma pausa... - Eu até conheço bastante coisa mas não sei exatamente o que eu consigo segurar. Vou dar uma pesquisada essa semana e te respondo.

Daí ele fica preocupado e com uma cara de desistência rebate:

- Tá bom! Chico Buarque! Eu também tenho que aprender a tocar o que você sabe cantar né?! O que você sabe do Chico?

Ah! Do Chico tem muita coisa né?! Afinal ele é o cara! - penso em quase voz alta. E mando uma que está na ponta da língua.

- Essa é boa! Outra!

Pausa... Não, isso não está acontecendo, ele pediu Chico! Que mais eu sei dele? Folheio o caderninho impaciente mas só encontro sambas e mais sambas e mais chorinhos. Sorrio amarelo e lembro que ainda nem fiz dois anos de samba! E eu cantava antes disso... Não cantava? Claro que cantava! Estamos em 2010 e eu canto desde 2002, o samba só apareceu em novembro de 2008! Até respiro aliviada... Então, o que eu cantava antes do samba?

"Onde foi que vivi se nem me lembro se existi antes de você?"

Ah! Meu samba...

Morena - jul/10

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Hipnose

Vou até a escola com o único objetivo de ser sorteada e poder efetuar minha matrícula, e assim é que, na verdade, começam as melhores histórias: sem pretensão nenhuma de sair do planejado.

Sete pessoas para seis vagas. E de repente tudo fica tão tenso... Serei eu a azarada a ficar de fora? Seis papéis brancos e um pardo. A convidada, de olhos vendados separa alguns papéis com os dedos, ainda com a mão na sacola transparente. O papel pardo cai e de repente eu penso pronto! Se vai ser um branco, vai ser o meu! De repente todos os outros lhe escorregam e ela recorre ao papel pardo, sozinho no fundo do saco. Um suspiro aliviado deixa meu corpo ao olhar meu comprovante branco.

- Maria Letícia!

É colega, quem sabe alguém não desiste e você consegue se matricular? – penso ao caminhar sorridente para a sala de matrículas.

- Você que está com bebê no colo e o senhor têm preferência!
Sem problema! Penso no meu cantinho... a vaga é minha! Passa quem quiser na frente.

E o bebê é o mais fofo de todos! Sorri de graça e eu me encanto com suas mãozinhas e coxas gordinhas. Faço um comentário em voz alta e alguém complementa da porta. Levanto os olhos para responder quando me deparo com um sorriso lindo! Tão incrivelmente brilhante que iluminou a sala toda por alguns instantes. Sorrio de volta sem ter a mínima ideia do que estava falando. E abaixo a cabeça para olhar o bebê, mas sem conseguir vê-lo mais...

Concluo minha matrícula e levanto os olhos para sair quando rapidamente fotografo a figura: chinelo de dedo, calça de tecido levemente colorida. Camiseta de mangas curtas, um dred único amarrando o resto do cabelo comprido de modo charmosamente desordenado. A pele é queimada de sol, os olhos esverdeados, a barba quase loura, da mesma cor dos cabelos e aquele sorriso também de graça. Sorrio de cabeça baixa e envergonhada enquanto passo por ele com mil documentos na mão e me dirijo ao carro. Um único pensamento concreto me vem a mente: porque um cara assim nunca me dá mole? E sigo pensando no pouco tempo que tenho para almoçar e no trabalho que me levará noite a dentro.

Entro no carro e, sem fechar a porta tento organizar meus papéis no banco do carona. Em seguida ajeito minha bolsa de forma a não amassar nada. Ouço uma voz do lado de fora, mas por algum motivo não dou atenção, viro para fechar a porta e me assusto ao dar de cara com ele. Fico meio em choque, hipnotizada por aquele sorriso por cerca de 1 minuto, que óbvio no tempo real não somaram 2 segundos, e sorrio boba como uma criança. Antes que eu pudesse me concentrar em ao menos tentar entender o que estava acontecendo, sinto meus lábios tocados por algo molhado e macio... Acho que eu pisquei e perdi alguma coisa...

Nessa hora, então, me envolve a cintura com braços fortes e parece que a minha alma começa a deixar meu corpo pela boca e pontas dos dedos. Quem é você que está me roubando de mim? E numa risada gostosa seguro seu rosto em minhas mãos:

- Eu não sei seu nome!

Ele, numa risada mais gostosa ainda me levanta do chão (ué, mas eu juro que estava sentada no carro!) e diz, sem tirar a boca da minha, que nomes não importam.

- Claro que importam! Eu não sei o seu!

Ele pára, se afasta uns quase 10 cm, e dessa vez me rouba a alma pelos olhos enquanto sorri e me diz uma palavra bonita, sonora, forte. Mas que não devia ser o nome de uma pessoa. Mal tem tempo de perguntar o meu até que volte a me beijar com força.

- Eu esqueci seu nome! – digo entre risadas infantis.

Ele repete, mas não sem tirar aquele sorriso lindo do caminho. E é óbvio que esqueci de novo e esqueceria mais dez vezes enquanto não fechasse os olhos e me concentrasse apenas no som da palavra.

Entre beijos, temos fragmentos de conversa, suficientes apenas para saber que ele se matriculou no horário antes do meu, e que a noite eu iria sair. Fico contente em saber que minhas manhãs de quinta-feira seriam sempre iluminadas e parti correndo, mas não sem antes ganhar 15 beijos de saideira e sem nem lembrar que hoje não posso mais almoçar.

Dirijo feito uma doida. No trabalho, me perguntam se vi passarinho verde. Ah!.. Penso comigo, se eu só tivesse visto o sorriso não era a metade! E em seguida um amigo confessa sonhar com o dia que vai ser atacado assim, na rua por uma mulher linda ao meio dia de um dia de sol...

Nem bem começo a trabalhar recebo uma mensagem falando do meu olhar, da minha energia, e me convidando a encontra-lo no final da tarde. Com a cabeça quase no lugar, respondo que trabalho até mais tarde, que posso encontrá-lo a noite onde eu disse que estaria.

Durante a tarde, entretida com o trabalho, esqueço e foi tudo tão surreal que até se entende o porquê.

Acabo saindo mais cedo, vou em casa, tomo um banho e resolvo ir a uma livraria matar o tempo, e enquanto caminho entre uma estante e outra de repente lembro dele e quero reaver a parte de mim que ele levou. Reflito por um momento e não encontro problema nele me encontrar ali. Mas não posso conter as risadas enquanto mando uma mensagem. Me sinto uma criança na véspera do Natal...

Segundos depois o telefone toca e ele me conta que está indo pra casa tomar um banho para me encontrar mais tarde. Faço uma cara de “pow!” mas acabo achando melhor. Só que antes de concluir a conversa, ele solta “a não ser que você queira me acompanhar” e eu, sonhando, respondo com um manhoso “pode ser!”. “Em 10 min eu estou aí”.

Desligo o telefone e quase volto ao normal, pensando em porque eu disse aquilo. Mas calculo que estou de carro, sigo ele e qualquer coisa eu vou embora.

Três dias depois ele chega. Não consigo entender onde ele está, o telefone corta, a ligação cai, eu rodo o shopping e finalmente entendo o que ele quis dizer. Dou a volta para encontrá-lo e, do final do corredor, vejo ele com as mãos no bolso e olhando para baixo. Vou caminhando ao seu encontro até que ele me vê e abre aquele sorriso... De repente meus olhos começam a girar e meus braços se levantam a minha frente, igualzinho um zumbi de desenho animado. Nem sei se penso alguma coisa, estou completamente drogada e, quando dou por mim, estou dentro do carro dele colocando o cinto. Sem sair do transe, penso “qualquer coisa eu volto de ônibus”.
No carro, mais fragmentos de conversa, entre os beijos roubados nos sinais fechados, faixas de pedestre ou simplesmente nas retas... E de repente olho pela janela e vejo a cidade se afastando e as luzes ficando cada vez mais escassas. Me preocupo: “Não tenho ideia de onde estou...”. Ele sorri e, depois de me roubar mais um beijo, me explica e diz que estamos chegando.

As luzes se acabam. Só tem mato dos dois lados e o pouco que se pode ver vêm dos faróis do carro na chuva fina. Bem mais a frente, vejo um portão de condomínio enfeitado com luzes de natal. E me vem um pensamento abstrato, com vontade de ser inteligível mas sem força para tanto: “ele tem vizinhos”.

O asfalto acaba e entramos literalmente no meio do mato. Já não posso entender muito bem o que acontece mas consigo definir uma casa na escuridão. Ele estaciona atrás da casa e a gente desce.

A cadela suja minha calça branca de barro, mas eu nem ligo. Ou nem percebo. Entro na casa impecavelmente limpa, sem um único prato na pia, vários livros despojadamente organizados pelos cantos e a música se manifestando através de instrumentos e CDs diversos. Me encanto e surpreendo ao saber que meu sorriso é médico e já me sinto adoecer só para ter suas mãos esculpidas a medir minha febre. E mais beijos, e beijos e carinhos... me lembro da hora e das meninas. Apresso o banho dele e sento na poltrona com o olhar vazio para um quadro... o efeito vai passando e já me sinto quase sóbria quando finalmente entendo os seios livres de uma índia.

Nessa hora, num sobressalto me percebo “onde estou? Quem sou eu?” E me apavoro por não encontrar resposta para a primeira pergunta.

Ele sai do banho cheiroso, me abraça e eu sinto seus ombros nus nas minhas mãos quentes. Seu sorriso quase me embebeda novamente, mas o medo não me deixa ir longe. “Você não assiste jornal não guria?” Penso quietinha, tentando não parecer estranha. Mas ele percebe, claro que percebe. Eu sou de vidro! Fico com pena dele, de ter se encantado por uma doida. E só penso em ir embora, e me angustio com a demora.
Quando chegamos de volta ao shopping, consigo relaxar um pouco, mas já tenho anticorpos. Sem zumbis dessa vez. Tento dizer que sou complicada numa tentativa frustrada de explicar que não sou assim, fui dopada por um sorriso...

Ele beija minhas mãos com carinho e inventa uma desculpa para voltar pra casa. Eu, me despeço querendo me desculpar, mas sem pulso para tal; e desço do carro para não mais vê-lo.

Na sala dele, conto sempre cinco pessoas. Tenho vontade de perguntar, mas acabo optando pelo mistério...

Meses depois o encontro em um show. De cabelos curtos, o que me impressiona (mais do que a constatação de que ele realmente existe), é o fato de ele estar dançando comigo... Me desligo um pouco da conversa que estou tendo e observo meu próprio rosto entrelaçado com o dele. Vejo nos meus olhos que alguma coisa me incomoda e, de longe tento perceber o que... mas ele gira e de repente está de frente para mim. Eu finjo que não o vejo e volto para a minha conversa. Até tenho vontade de falar com ele, mas lembro de como nos conhecemos, reparo nos amigos a minha volta e concluo que duas de mim é muito para uma noite só.

Antes de ir embora, ainda o vejo a me beijar, e a pontinha de um sorriso se abre no canto da minha boca...

Morena - abr/10

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Relógio


Acordou assustado e percebeu que era tarde. Mal conseguira dormir durante a noite e mesmo assim foi capaz de perder a hora. Com ironia refletiu sobre isso: interessante perder a hora... Será que em algum momento teria sido senhor dela?

Se apressou em enfiar a camisa na calça e sair correndo, nem teve tempo de tomar aquela xícara de pingado que se tornara sua maior religião antes de encontrar a porta. E ele, que não sabia correr, saiu desajeitado pela rua afora.

Já na estação do metrô, a mulher do caixa não tinha trocado e, obviamente as próximas 10 pessoas também não tinham. Tentava, no entanto, ser positivo: o primeiro troco seria o dele.

Assim que o recebeu saiu apressado e, devido a ansiedade, amassou o cartão de passe na tentativa de colocá-lo na máquina de acesso. E mais um bom tempo foi perdido para reverter o processo.

Já ao longe podia-se ouvir o barulho do metrô chegando e seus ouvidos sensíveis podiam até distinguir que aquele seguia para o lado correto. Desceu as escadas burlando uma senhora, quase tropeçando em uma criança e pedindo desculpas sem diminuir o ritmo.

Já podia visualizar a condução quando teve a brilhante idéia de ler o destino: samambaia. Deu alguns passos para trás e, desolado, ocupou logo uma cadeira que acabara de vagar.

Perdi a hora de novo... pensava agitado. Será que não exisitiria um seguro ante roubo de hora? Ele não era tão desleixado para perde-la com tanta frequência. Se acreditava roubado quase todo dia do privilégio de saber onde ela estaria. E mesmo assim não se atrevia a olhar o relógio, como se esse pequeno objeto pudesse atrasá-lo ainda mais. E tão perdido ficou em seus pensamentos e tanto demorou o próximo metrô a chegar que foi por pouco que não permaneceu enquanto o vagão se afastava.

Levantou aflito e se dirigiu à porta quando lembrou estar a apenas três estações do terminal. Respirou aliviado e se preparou para encontrar um acento vazio ao lado da janela, onde poderia confortavelmente apoiar seu violão entre as pernas e curtir a pouca paisagem que lhe dava direito as entradas e saídas dos túneis.

Quando o transporte parou, grande surpresa ao reparar os "bafinhos" no vidro e pensar que não era possível que ainda ele conseguisse entrar, calculou. Mas mesmo assim deu um passo a frente e sentiu o guada-chuva prender atrás de si. Tentou ainda puxá-lo com força mas notava apenas que ficava mais preso e que logo alguém tomaria o pequeno espaço que ele reservara para si dentro daquele vagão. As portas se abriram e ele soltou um breve suspiro ao lembrar do preço do guarda-chuva, antes de soltá-lo e dar aquele primeiro passo que crusa a linha amarela. A surpresa veio ao perceber que ao menos mais vinte pessoas entraram depois dele e sem esforço nenhum ele parou no meio do vagão. Só se preocupou em não deixar o violão se expremer contra um acento ou algo que pudesse danificá-lo. Ainda pôde sorrir de canto de boca ao perceber que não precisaria segurá-lo. Tudo culpa do tempo, da hora que escorria por entre seus dedos de unhas compridas...

A chuva fina não permitia que as pequenas janelas superiores ficassem abertas e em um primeiro momento, sentiu a cabeça tontear e o ar lhe faltar nos pulmões, mas depois lembrou do motivo da pressa e pôde até relaxar um pouco. Estava atrasado, mas estava a caminho. E, mesmo sendo tão magrinho, sentia seu corpo todo suar naquela eternidade que levava entre uma parada e outra. Chegou a tirar o chapéu por duas ou três vezes e pentear o cabelo liso na tentativa de não deixá-lo grudar na testa.

Finalmente o metrô parou e ele, com urgência, se jogou no meio da multidão na esperança não só de conseguir chegar até a porta antes que ela se fechasse, como de ser o primeiro a encontrar o ar puro.

Mais uma vez ele correu naquele dia e, sem proteção, misturava as gotas de suor às daquela chuva insistente.

Minutos depois ele conseguiu visualizar o destino pretendido e, de envergonha pelo atraso, ou ansiedade pelo fim da espera, caminhou a passos lentos em direção a ela, que de cabeça baixa se concentrava em ler um livro.

Ao notar a sombra se espalhar pela mesa, ela tomou um minuto e observou as proporções antes de morder os lábios, virar-se e dizer:

- Você está atrasado.
- Eu sei. Me desculpe.

Ela então sorriu com singeleza e, sem se levantar, envolveu a cintura dele com os braços e se sentiu ensurdecer ao ouvir seu coração.

Morena nov/09

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Avião


Entro no avião a espera de que ele possa, de alguma forma, ajudar a me encontrar.

Sou a primeira a sentar na fileira da esquerda, nem janela nem corredor, e vejo o reflexo dos meus dias: sempre no meio das escolhas...

De repente os passageiros começam a se acomodar e percebo duas extensões de mim mesma: a juíza e a professora.

A juíza, no corredor, é uma mulher viajada, curtida, conhecedora de mundos e fundos. Entendida de lugares e pessoas. Militante do movimento estudantil na sua época de ouro. Hoje apenas uma companhia simpática de vôo.

A professora, do outro lado, é exatamente o que aparenta: alguém que viu sua vida passar pela janela... no entanto, inicia nesse avião sua nova empreitada: recém separada de um casamento que iniciou grávida 18 anos antes, partia ansiosa para o início de uma vida onde seria finalmente a protagonista dos dias.

Ivone, a juíza, deve ter por volta de 50 anos bem vividos.

Kelly, terá menos de 40 em seus anos escondidos.

Eu, no meio, me estico para me reconhecer nesse espaço. Com a escaleta presa entre os tornozelos me esforço para dar cores à arte de dentro de mim, à música, e à própria vida que advém tão simplesmente delas. Posso respirar fundo ao erguer a cabeça e assumir um destino nem a esquerda nem a direita, mas a frente. Assim como Kelly, um belo dia resolver me jogar no mundo e arriscar e, assim como Ivone, ter a segurança de quem vai para esse mundo e sabe o que está em jogo.

Desço do avião resoluta.

Saio sozinha, vou para a praia e visto um biquini pela primeira vez desde que comecei a escolher meu próprio guarda roupa.

Choro... também acho que faz parte da mudança sentir saudade de si mesma, mas sei que devo lembrar que o progresso é para frente e que eu não caibo mais nos meus 15 anos. Quem me dera! Eu era feliz... Mas parece que o tempo passou e eu estava preocupada demais tentando encontrar a Terra do Nunca. Só que o próprio nome do local já trás o endereço...

Morena - out/09

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Ela odeia ficar doente.

Ela odeia ficar doente. Mesmo assim finge que não está e vai trabalhar. Talvez só para vê-lo.

Ela sabe que ele também está doente, mas não teve vontade de ligar. Olhar para ele, mostrar-lhe uma música e não ter que pagar depois as horas perdidas parece suficientemente atraente para levantar da cama e tomar um banho frio.

Ele chega atrasado, mas está lá, lindo como sempre, o cabelo liso partido de lado e espetado que atrai insistentemente os dedos dela. Como se ainda pudesse lembrar da reação em cadeia que aquele toque causava...

Ela sorri ao olhar para ele e não encontrar o doente, mas apenas ele. Ele foge de seus olhos com a face corada, como se ela não pudesse perceber. Ela ainda o vê se encher de remédios mas sabe da pequena eficácia que terão. Pensa em intervir e chega até a fazer um comentário, mas lembra a tempo que ele já não é sua jurisdição.

Como eu disse, ela odeia ficar doente. Mas dessa vez não tem opção. Fica em casa e assiste a uma comédia ridícula, do tipo romântica, onde ele é lindo, ela também, eles brigam o tempo todo mas se entendem no final e vivem felizes para sempre. Ela lembra porque não gosta de televisão enquanto uma lágrima solitária brilha em seu rosto. Por que ele não é o príncipe encantado? Ela votou nele, e ele se fez candidato...

Se enrolou nas cobertas e sentiu saudades. Tanta que quis voltar, se pudesse viveria tudo de novo só para sentir o cheiro dele, pra sentir suas unhas compridas a acariciar seu rosto, seus olhinhos brilhando quando a via de saia ou para saber tudo o que ele sentia por ela. Para ouvi-lo assobiar canções e gaguejar quando ela lhe dizia não. Não voltaria para fazer nada diferente, para se desculpar ou aproveitar melhor porque se arrepende ou algo assim. Voltaria apenas para viver de novo e apertaria o play naquele dia que se esbarraram no corredor pela primeira vez.

Viveria de novo e de novo e de novo como a um filme favorito. Relembraria com as pontas dos dedos de cada traço do seu rosto e sentiria seu coração vivo dentro do peito.

Não, ela não o quer de novo. Não depois do que ele fez. De quem ele fez. Mas não pode evitar que mais algumas lágrimas venham fazer companhia àquela primeira de minutos atrás.

Ela troca de canal a procura de violência, crime, morte e muito sangue. Nem sei se é possível explicar, mas pela primeira vez em dias ela pára de tossir. E de lembrar.


Morena - set/09

domingo, 6 de setembro de 2009

Coquetel com a justiça


Essa semana um amigo me chamou para vê-lo tocar no STJ, entrei na internet e constatei: música ao vivo, arte visual e comida de graça. Por que não?
Ao chegar, fui orientada inclusive sobre a vaga que deveria estacionar. Achei divertido receber toda aquela atenção mas só comecei a entender o que estava acontecendo a partir do momento que tive que colocar minha bolsa na esteira do raio x e passar por um detector de metais. Inclinei a cabeça e me observei de baixo para cima: sandália de couro, calça de tecido estampadíssima, uma camiseta de mangas curtas acompanhada de um casaquinho simpático. Os brincos tocavam os ombros, o cabelo sempre despenteado e uma bolsa de couro enorme e velha. “Ainda bem que eu sou artista!” pensei rindo sozinha, e entrei no elevador já me sentindo meio Luiz Fernando Veríssimo, sentindo o cheiro da crônica que aquele evento guardaria no forno.

“Segundo andar. Descendo...” E eu me deparo com um salão enorme com um chão do tipo que dá até pra comer neles de tão limpo e brilhoso. Para chegar nesse salão, um corredor extenso com várias fotos de ministros pelas paredes e um chorinho gostoso no final da linha.

Fui me aproximando confiante em meio a saltos e gravatas, encostei na bancada ao lado dos músicos e estive lá apenas até que todos tivessem notado minha presença, nada discreta, e tivessem me sorrido com uma expressão de surpresa. Mas, para não pagar de tiete, resolvi dar uma volta na exposição: pintura contemporânea. Na verdade me atrevo a chamar assim mas é por pura ignorância no ramo das artes plásticas: não sei apreciar uma obra constituída de tinta colorida desordenadamente posicionada em uma tela.

Tentei resistir ao “pré-conceito” e observar obra por obra com cautela. A falta de título tornava minha observação ainda mais complicada: como entrar na viagem de uma pessoa que recorta trechos de um jornal escrito em francês e cola em alto relevo numa tela de tintas misturadas e cantos manchados? No que ela estaria pensando? Seria ela francesa? Sobrenome: Tapajós... Improvável, mas possível.

Mais a frente um quadro vermelho com círculos em tons de vinho. Ah! Esse tem nome: “Vermelho”. Hum... não ajudou muito. Mas já no final da minha andança, quando me encontrava quase completamente desestimulada e minha mente se limitava a acompanhar o paladar na degustação daqueles deliciosos canapés de salmão; me encontrei hipnotizada na frente de um redemoinho em alto relevo colorido de verde, laranja e marrom: “Coração da Terra”. E o meu próprio coração se apaixonou pelo dela... Não sei dizer quanto tempo fiquei ali, só sei que demorei a identificar o celular vibrando no bolso e no auge do seqüestro da alma pela imagem, iniciou-se uma seção terapêutica.

- E o seu “ex-amor”? Como vai?

Dei um passo para trás e olhei para o lado:

- Está aqui tocando...

E o próximo diálogo me levou a encarar o terceiro personagem da noite: a maluca, obcecada, que persegue o cara descobrindo onde ele vai e aparece “sem querer” só para estar ao alcance dos olhos se, por acaso, ele quiser voltar. Não! Torci o nariz de repulsa e tentei voltar para a artista, observadora, crítica, capaz de se deixar roubar pelos olhos. Ainda fui capaz de notar uma última tela em tons de verde, azul e branco. Não me lembro do título, mas poderia se chamar apenas “Mar” que seria capaz de cumprir seus propósitos. Linda, ela era a onda, vista de cima quebrando na praia... já pude sentir o cheiro de mar, camarão, sol, a textura da areia fugindo de debaixo dos meus pés no recuo do mar, a viagem que ele inventou, que eu planejei, mas que nunca aconteceu... saco! Lá vou eu de novo. Não foi por isso que eu vim!

Voltei ao salão principal tentando ressuscitar a tiete mas já não podia encará-los tocando, a obcecada não me deixava relaxar com vontade de também fazer parte da cena, mesmo que nunca tenha sido convidada a fazer nem uma ponta que seja nos dramas da minha vida.

Sentei no sofá confortável a devorar os canapés e curtir aquele repertório delicioso que rolava do outro lado do salão. Na hora pensei “é uma pena que não bebo”, apenas porque o champanhe estava rolando solto, mas depois lembrei do quanto acho um máximo estar sempre sóbria e aquela sensação passou. Quarto personagem: abusada, morta de fome. Logo transformei na oportunista e me senti com mais classe. Rata de obras de arte e saraus talvez? E de repente já estava cumprimentado as pessoas a minha volta e regendo a música de fundo já quase com vontade de começar a “vazar” num pedido de respeito ao sabor delicado do cavaco.

Mas o raio da obcecada estava grudada na sola do meu pé e volta e meia me soprava na mente “confessa! Você só veio por causa dele”. “Hora de ir!”, decidi de repente, e desapareci no meio do povo ao som de Pixinguinha...

Morena set/09

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Momentos

Ele chegou perto dela e deu-lhe um gostoso abraço. Daqueles que você pára de pensar, para de se preocupar e só sente o momento. Daqueles que você não fica sem graça pensando em "quem vai soltar primeiro". Você só sente a respiração do outro no seu próprio pescoço sem admitir, apenas porque não está pensando, que não quer soltar nunca mais.

Ela olhou nos olhos dele, os pequeninos olhos castanhos, e sorriu.

Ele, com o polegar de unhas compridas, enxugou uma lágrima furtiva e apertou os olhinhos como se dissesse "não fica assim".

Ela virou o rosto e beijou sua mão enquanto a pressionava contra o próprio rosto. O fazia de olhos fechados e sentia novamente, como aquele abraço.

Ele desceu do carro. Deu a volta e abriu a porta dela, onde ficou a olhá-la por alguns instantes, a observar as novas lágrimas que já rolavam sem vergonha pela face. Passou a mão por suas costas num afago e acabou por tomá-la novamente em seus braços.

Ela, entre soluços, o apertou com fimeza, já sem sentir o toque mas apenas desejando prendê-lo.

Ele a segurou com delicadeza sem querer acreditar.

Como sempre, ela soltou primeiro e, sem se olhar, por covardia ou comodismo; cada um seguiu seu rumo arrastando o passado consigo, mas sem vontade de olhar para trás.

Morena - ago/09

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Borboletas

A lagarta caminha a passos lentos em direção ao seu destino. Saberia ela o que a espera?
Provavelmente não. Ela age por instinto. Mas caminha resoluta e sabe bem o que quer, onde quer e quem quer.
Se ela tivesse a mais remota ideia dos eventos que se seguiriam, provavelmente teria titubeado, parado no meio do caminho e dado alguns passos para trás. Não. Ela não sabia. Mas mesmo assim vai até o ninho e se recolhe.
De repente, a lagarta começa a sentir seu pequeno corpo endurecer. Ela acha que está ficando mais forte! Agora nada poderá feri-la! Ela enche o peito e se torna ousada, destemida e por sua cabecinha passam vários dos seus sonhos... Só que endurece demais e a sensação é sufocante! Antes de perceber, está presa dentro de si mesma. Não pode mais sair dali. Todos os seus desejos, mágoas, alegrias, todos os seus anseios e realizações se tornam apenas devaneios e passam a fazer parte do interior solitário da triste lagarta.
O que se pode fazer? Tirá-la de lá? Não... A lagarta é uma criança, ainda tem a vida toda pela frente e terá que se descobrir sozinha. Terá de ser sua própria amiga e aliada. Quem poderá saber o que se passa dentro daquele casulo?
A lagarta pode passar meses ali. Depende da sua espécie. Depende da sua auto-estima e determinação. Depende da sua vontade de viver e de conviver. Da sua disposição...
Mas um belo dia, quando ela menos espera, uma pequena abertura aparece no casulo. Aquele que era sufocante e apertado, o mesmo casulo ingrato que causou tanta dor e sofrimento já se tornou quente e aconchegante. A lagarta não viu a placa: "não acomodar com o que incomoda" e aquela pequena abertura que a tempos seria acolhida com risos e gritos de conquista, apenas fazem com que ela feche os olhos para não sentir arder com a entrada da luz.
E aí? Acabou?
Ela, mais uma vez, não tem ideia do convite que aquele foco de luz representa, mas tem medo. E provavelmente não vai conferir, vai se virar de lado e tampar a entrada de luz com as costas. Mais fácil do que tentar sair por aquele buraquinho tão pequenininho.
Mas felizmente, ou não, só não sai do lugar quem não conhece a raiva, e na vida de cada lagarta deve existir aquele momento mágico, no limiar da sobriedade racional e da cólera insana quando em um grito de dor e desespero ela se espreme pela aberturinha. Nem ela mesma entende o que está fazendo, a raiva não permite que ela calcule suas dimensões gordas e flácidas por aquele orifício milimétrico. Não. Ela não pensa, e nem tem tempo de sentir dor. Ela só se empurra com todas as forças que tem contra aquela esperança de liberdade.
De repente pára. Ao observador, parece que desistiu. Mas não a desistência pelo desânimo, e sim pela derrota: ela não foi capaz e ponto. Mas, teria ela lutado até o fim? Até que seu corpo débil não conseguisse se erguer mais? Até que, fatigada, ela desse seu último suspiro? Não. E por certo não poderia continuar a viver sem a certeza de que era realmente incapaz.
Dessa vez, num acesso de coragem e recheada de ideais de conquista, ela se lança novamente contra a abertura no seu casulo. Parece que a raiva dobrou, que ela chorou e finalmente acreditou em si mesma. Nas suas capacidades. Só aí o casulo rompe e ela entra em contato com o mundo exterior.
Cansada e murcha, ela respira ofegante sem compreender o que aconteceu consigo mesma. Analisa suas asas amassadas e não consegue visualizar a transformação. Ela pausa perplexa e olha ao redor.
"Quem sou eu?", "Onde estou?" Serão suas próximas perguntas caso ela não se encontre na frente de um no espelho. Nesse caso, a pergunta então será: "Quem é essa?" E ela verá que seu corpo seca e enrijece, abrindo então suas lindas asas...
Em um bater do vento ela, meio sem querer, bate também as asas e se entrega a sobrevoar a cidade. "É uma linda borboleta azul", diria uma criança a apontar seu voo. Ela é, de agora em diante, nada mais, nada menos que uma linda borboleta azul. Mesmo que não entenda bem o processo, mesmo que ainda tenha dentro de si lembranças e mágoas daquelas dores que sentiu e mesmo que ainda tenha medo de alcançar potência máxima e explorar as mais elevadas altitudes, ela é uma linda borboleta azul. E, uma vez borboleta, lagarta nunca mais.

Morena - jun/09